Sempre quis escrever sobre a Mónica Calle e sobre o seu trabalho, mais do que nas críticas que tive a sorte de ir fazendo sobre ela desde 1992. Mas não sabia como, e agora tinha uma espécie de oportunidade. Mas não tinha tempo para fazer como queria, e então – pedi para assistir a um ensaio do Ginjal, no Montijo. Depois jantei com a Mónica. Depois vi o espectáculo, ainda no Montijo. Depois falei mais ainda, com toda a gente que entrava no espectáculo. Foi um dia muito bom, uma conversa de que não consigo reconstituir tudo, e a necessidade de transformar esse dia num texto para a OBSCENA. Só podia ser a partir da conversa que tivemos ao jantar, juntando fragmentos que fui acumulando ao longo desse dia e ao longo de dezoito anos de ver espectáculos da Mónica Calle, na Casa Conveniente a maior parte, e alguns sem ser na Casa Conveniente; juntando também aquilo em que fui pensando nas alturas mais inesperadas, como acontece a toda a gente. Será uma coisa fragmentada, não para ser moderna, mas para transformar uma possível desculpa numa coisa que me seja francamente cara, que é o que têm sido estes dezoito anos de Casa Conveniente. Por isso, também, tudo o que diz respeito a este lado do diálogo – as perguntas, os comentários, os apartes – às vezes é fantasia, invenção; tudo o que diz respeito ao outro lado do diálogo, às palavras da Mónica Calle, é verdade.