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paulo_eduardo_carvalhoPaulo Eduardo Carvalho
(7 Julho 1964 – 20 Maio 2010)

 

 

 

 

 

 

 

texto Mónica Guerreiro
fotografia João Tuna

 

No dia em que o Paulo perdeu a vida na Praia do Cabo do Mundo, em Leça da Palmeira, estavam em cena dois espectáculos baseados em traduções suas. Um era A Rainha da Beleza de Leenane, de Martin McDonagh, pelo Teatro Meridional, em Lisboa. O outro, A Nova Ordem Mundial, curto texto de Pinter que os Artistas Unidos fizeram figurar com Comemoração, em Aveiro, Guarda, Ponte de Sor e Lisboa. Até início de Julho pudemos ainda ver, no Porto, Mulheres Profundas/Animais Superficiais, de Barker, pel’ As Boas Raparigas...; e, no Teatro Nacional D. Maria II, Todos os que Falam, de Beckett, posto em cena por Nuno Carinhas (produção Assédio/Ensemble/TNSJ).

Ao longo dos últimos 15 anos, mais de 40 produções teatrais partiram de textos que PEC verteu para a nossa língua, maioritariamente do inglês mas não só, com predominância de autores irlandeses e ingleses, alguns dos quais introduzidos por si nos nossos palcos, nos corpos e vozes dos nossos actores, nas nossas companhias, em várias publicações e estudos.

Ayckbourn, Barker, Beckett, Carr, Churchill, Crimp, Friel, Fugard, Harrower, Laberge, Lunari, McDonagh, McGuinness, Murphy, Pinter, Shawn... O seu contributo para a divulgação e, em tantos casos, descoberta de novas dramaturgias é tão evidente que causa estranheza o facto de o seu nome não ser mais reconhecido. PEC. Paulo Eduardo Carvalho.

Professor universitário generoso, investigador, ensaísta e tradutor de inexcedível rigor, autor e crítico inspirado, co-organizador de colóquios, encontros científicos e edições, incansável colega da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro (a cuja direcção pertenceu entre 2004 e 2009) e do conselho redactorial da revista Sinais de Cena, integrava ainda o comité executivo da Associação Internacional de Críticos de Teatro, onde dirigia os seminários de formação para jovens críticos. No último ano, intensificou e diversificou ainda mais a sua plural dedicação ao teatro: encenou pela primeira vez um espectáculo, a que chamou Cartas Íntimas, com texto de Brian Friel e tradução sua, produção da Assédio e interpretação de João Cardoso, Isabel Queirós e quatro alunos do curso de música da ESMAE. Uma experiência inaugural que se pôde ler, afinal, como um seguimento: Friel foi um dos primeiros dramaturgos que PEC traduziu e sobre quem, de certo modo, passaram a gravitar as suas preocupações enquanto investigador. Indagações progressivamente extensíveis ao frutuoso terreno dramatúrgico irlandês e à sua representação, inconstante, na nossa criação teatral, como analisou, ao cabo de uma pesquisa de doutoramento, na tese Identidades Reescritas - Figurações da Irlanda no Teatro Português, também de 2009.

Além da especial ligação à Assédio – Associação de Ideias Obscuras, de que fez parte (embora tenha trabalhado com várias outras companhias, de todo o país), PEC permanecia muito presente enquanto interlocutor da realidade teatral a Norte e particularmente aliado ao Teatro Nacional São João, de cujo Centro de Edições era colaborador assíduo e que fica depositário de parte significativa dos seus textos, críticas e entrevistas, publicados em programas e folhas de sala. Essa relação teve também por resultado a monografia, editada em 2006 pela Campo das Letras, Ricardo Pais – Actos e Variedades, que se debruçava sobre a carreira do então director artístico do TNSJ. A sua obra é abundante e importante, impossível de fielmente arrolar neste espaço. O obituário patente em www.aict-iatc.org/aict-5.html e a evocação de Maria Helena Serôdio em www.apcteatro.org dão conta da relevância e singularidade do seu labor.

A sua inteligência e entusiasmo, a par de um sentido de humor infeccioso, uniram-nos numa amizade cúmplice que não teve só momentos felizes. Porque a sensibilidade extrema e a obstinação eram também traços do seu carácter (e, cabe dizê-lo, do meu), a certo momento deixámos de ser próximos como em tempos fôramos. Mas nunca esqueci, nem deixo de afirmar, que PEC era uma pessoa valiosa como não há muitas nesta comunidade, espirituoso, altruísta, sempre pronto a ensinar, a mostrar, a emprestar, a ajudar a pensar. Nem que o seu trabalho, quase sempre invisível e pouco distinguido, constitui um motivo de orgulho para todos os que fazem das artes do espectáculo a sua causa, e deve ser objecto de divulgação, leitura, apresentação e gratidão. Porque devemos muito ao Paulo, todos: agentes culturais, leitores e espectadores.

Bloomsday, 16 de Junho de 2010.

 

Leia aqui a crítica ao livro Ricardo Pais: Actos e variedades, de Paulo Eduardo Carvalho, por Francesca Rayner, publicada na OBSCENA #3.

 

Este texto foi publicado na OBSCENA #24.

 

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