
Conheça o índice da nova edição e leia o editorial
Julho / Agosto 2010
Durante o período de preparação desta edição, e muito por causa das notícias de cortes no financiamento às estruturas culturais, conceitos como programação e selecção estiveram em cima da mesa. Tiveram que se fazer escolhas que vão obrigar não apenas a uma racionalização de despesas mas, também, a uma redefinição do que se entende por tecido cultural. Reflectir e teorizar será, eventualmente, secundário num quadro que exige atitudes concretas – ou, citando Tricky Nixon, a personagem inventada por Philip Roth em Our Gang, “nem é o que decide, mas que se decida”.
Editar, criticar e publicar será, eventualmente, semelhante a programar se, por programação, entendermos um enfoque particular em momentos, discursos e olhares que funcionam como os eixos de uma roda de bicicleta: são todos necessários porque se complementam, não porque podem sustentar a sua singularidade. O trabalho que desenvolvemos na OBSCENA não tem a ambição de seleccionar, se por seleccionar, quisermos apenas entender exclusão. São enfoques em realidades que irradiam para outras. Obedecem a critérios que não apenas o da agenda das programações dos espaços culturais, que estão mais próximos de uma vontade de questionar o presente a partir do cruzamento de diferentes olhares, não apenas o dos artistas e projectos que encontram aqui o seu espaço, mas também o dos próprios autores dos textos, também agentes activos na mobilidade do pensamento, da reflexão e, por inerência, do impacto das próprias obras.
Num contexto económico austero como o que estamos a atravessar – no qual a OBSCENA questiona a sua própria continuidade –, a identificação de percursos, estejam eles no início ou já numa longa viagem, que possam responder à utópica pergunta “para que é que se faz o que se faz?”, é crucial. E é-o porque se liberta da carga ambiciosa de tomar a parte pelo todo, levando a que cada olhar valha por si e, nessa consciência da sua limitação, saiba que deve fazer o melhor que conseguir, com os meios e os recursos que tiver à sua disposição. Como sempre, existirão linhas que cruzam os textos, muitas delas imprevistas no momento da selecção. No caso, e o que lhe propomos é que as descubra a partir dos bailarinos do Mali, do teatro em Angola, dos encenadores em França e Portugal, dos coreógrafos do Quebéc, do trabalho, no Funchal, da companhia Dançando com a Diferença, das ambições de jovens criadores, sejam eles portugueses, italianos, franceses ou canadianos, das lutas de Regina Guimarães e Igor Gandra por uma Europa mais condicente com o que prometeu ser, da resistência do dramaturgo sul-africano Athol Fugard ou das questões que os intérpretes – esses veículos para os discursos dos autores –, se colocam, dia após dia. Queremos que as descubram, como nós descobrimos quando, no momento de vermos o conjunto dos textos, vemos o que nem sabíamos lá estar.
Esta edição – pela quarta vez produzida em colaboração com o Festival de Teatro de Almada, a quem agradecemos –, é sobre a descoberta do olhar. De um olhar. Um olhar que nos guia, pergunta e questiona. Um olhar que selecciona. Um olhar que também programa. E, no caso, que programa o futuro.
PS: Agradecemos as mensagens de solidariedade para com as dificuldades que estamos a enfrentar na continuidade deste projecto. Agradecemos a aquisição de publicidade, vinda, uma vez mais, de diversos pontos do país, provando a abrangência desta revista. Continuamos à procura de soluções, a seis meses de, nós mesmos, ponderarmos suspender a publicação.
Nas bancas a partir de 5 de Junho. Consulte aqui os pontos de venda, contacte-nos através de , através do Facebook ou através do 211 919 444.
Índice:
Opinião: Camarote Par: Quando a crise chega por André Dourado (7)
Perfil: Há que dizê-lo (12)
Perfil: Sofia Dias & Vítor Roriz (13)
Perfil: Fanny & Alexander (14)
Perfil: David Wampach, Rémy Héritier, François Chaignaud (15)
Dossier: Diz-me como interpretas, dir-te-ei quem és (17)
Perfil: Regina Guimarães & Igor Gandra (28)
Perfil: Marina Abramovic (30)
Foto-Reportagem: Dançando com a diferença (34)
Ensaio: Monika Gintersdorfer - Glamour existencial: Um diálogo performativo entre Alemanha e Costa do Marfim (36)
Perfil: Benoit Lachambre (38)
Perfil: Maguy Marin (40)
Ensaio: A dança instala-se para melhor se mexer (42)
Dossier: 27º Festival de Almada
- Ensaio: Grandeza e Miséria de Moltchéshake (45)
- Entrevista: Athol Fugard (50)
- Entrevista: Mónica Calle (52)
- Reportagem: As Formigas: A guerra e o actor e a partilha de experiências (54)
- Entrevista: José Mena Abrantes (55)
- Ensaio: Breve historial do teatro em Angola (57)
- Ensaio: A noite em que Fernando Pessoa conheceu Konstandinos Kavafis (58)
Opinião: InternacionaliArte: Transacções, exportações e algumas mistificações (60)




















































































