Leia o editorial da OBSCENA #23.
Caro leitor,
Se conhece a OBSCENA sabe que esta edição tem um formato diferente. A solução encontrada, se podia fundamentar-se numa adaptação da revista aos calendários de acesso à informação por parte dos festivais e programações que fazem os conteúdos desta edição, não é senão uma resposta pragmática a um quadro de sustentabilidade financeira complexo.
Há três anos, quando criámos esta revista, sabíamos que a especificidade temática, e a ausência de modelos, seriam entraves a uma evolução económica que traduzisse o empenho com que fazíamos cada edição. Ao fim de dois anos de trabalho solicitámos, pela primeira vez, apoios para a estruturação do projecto. Conseguimo-lo através do reconhecimento por parte da Fundação Calouste Gulbenkian (12 mil euros) e da EGEAC (7 mil euros), dois parceiros essenciais para a tão necessária organização.
Ao longo de 2009 recebemos mais dois apoios específicos: um do Instituto Camões (4 mil euros) afecto à construção e manutenção de um site bilingue (português/inglês), e outro da Câmara Municipal de Almada (6 mil euros) para o desenvolvimento de conteúdos relativos ao Festival de Teatro de Almada. Da Direcção-geral do Livro e das Bibliotecas foi-nos dito que a ampla visibilidade da revista, e o seu poder de atracção comercial, não permitiam um apoio ao nível da aquisição de exemplares para distribuição em bibliotecas municipais, a única forma de apoio que o Estado tem para as edições. Decidimos, na medida das nossas possibilidades, fazer chegar a revista às bibliotecas espalhadas no país.
2009 foi também o ano em que fixámos a periodicidade na bimestralidade e passámos a imprimir todas as edições, o que fez aumentar o preço médio por edição para os 12 mil euros, sendo metade desse valor gasto na impressão. Tivemos que encontrar a nossa própria rede de distribuição por falta de capacidade de resposta às exigências das duas distribuidoras (VASP e Logista) que controlam os quiosques e outros pontos de venda fundamentais (e que ficam com 65% das vendas, exigindo uma impressão mínima de 5 mil exemplares), no que isso significou de negociação, um a um, de uma consignação com espaços que, como aconteceu muitas vezes com os culturais, não tinham enquadramento jurídico que permitisse a venda da revista. Mesmo se a venda nestes sítios parecia lógica para nós, eles próprios e os leitores. Isto representa uma média de 1300 euros por número para assegurar a distribuição apenas nos sítios existentes no momento (70), assinantes e ofertas (cerca de 200 envios individuais).
O mesmo se passou com a publicidade. Foi-nos dito, muitas vezes, não haver orçamento para anunciar na revista sem que sequer fosse consultada a tabela de publicidade da revista, a mais baixa de todas as publicações. Como nunca tivemos margem financeira para contratar um comercial que pudesse fazer pesquisa de anunciantes, toda a publicidade feita na revista foi directamente requisitada pelos anunciantes.
2009 foi ainda o ano em que tivemos, pela primeira vez, um escritório, colaboradores pagos mensalmente, mesmo que a meio tempo e salarialmente abaixo do trabalho que tinham que efectuar, bem como autores e tradutores profissionais a receber pelos seus artigos (e muitos, generosamente, a dispensarem esse pagamento que começou simbólico e foi, progressivamente, procurando equivaler-se às tabelas abstractas que existem na imprensa). No total gastámos quase 90 mil euros.
Com as receitas angariadas pelas vendas (descontando um valor médio de consignação de 30%), mais a publicidade, bem como com as assinaturas, conseguimos chegar a um total de 40 mil euros. O restante, no que isso representa de défice da revista, foi suportado por colaborações e investimentos pessoais.
No fim de 2009 preparámos um plano de reorganização do projecto que, explorando o potencial do trabalho realizado, e com um conhecimento do terreno mais adequado, permitisse perspectivar um crescimento sustentado através de um orçamento que tripartisse apoios públicos, privados e receitas próprias. Era um plano que se entendia até 2012, quando a revista fizesse 5 anos. Era um plano que procurava honrar a confiança depositada em nós pelas instituições que nos apoiaram, respeitar as ambições dos leitores e atrair mais anunciantes, procurando desta forma colmatar as falhas que nos foram sendo apontadas. Incluía formação de autores, internacionalização da revista, eficácia na distribuição, parcerias para a angariação de verbas a partir de projectos - satélite, arquivo e documentação, criação de uma solidez salarial, intercâmbios. Tínhamos a ambição de crescer, tendo como argumento o empenho na prossecução do projecto, apesar das difíceis condições de existência financeira.
Não conseguimos renovar alguns desses apoios. A crise económica serviu de argumento na maior parte dos casos. A excepcionalidade da revista também foi usada como resposta. A certeza de que iríamos encontrar apoios era generalizada.
Para 2010 temos como único apoio o protocolo com a EGEAC, de igual valor (7 mil euros), apesar da manifesta vontade e ambição da Presidência do Conselho de Administração em encontrar outras formas de apoio, que nos sensibiliza e agradecemos. Aumentámos o número de assinantes através de uma campanha de promoção especial. Conseguimos que esta fosse a primeira edição inteiramente paga pela publicidade, com a generosidade das diversas entidades que reflectem bem a amplitude nacional da revista (há anúncios vindos do Porto, Guimarães, Paredes de Coura, Évora, Viseu, Palmela, Lisboa, Minde), num esforço que, em alguns casos, se vai estender para lá desta edição. Mas tudo isto não chega.
Para o cumprimento dos serviços mínimos precisamos de um orçamento mensal médio de 7500€. Isto inclui o escritório, e as suas despesas, o pagamento de salários (webmaster, assistente editorial, contabilidade, edição de fotografia, design, coordenação), o pagamento aos autores, tradutores e fotógrafos, as viagens e a impressão. Não inclui capacidade de investimento, de novas produções, de ampliação do trabalho feito. Inclui, apenas, a edição bimestral da revista nos moldes em que está a ser feita. Ou seja, sem possibilidade de crescimento. Um valor adequado seria uma média de 10 mil euros por mês. Um valor que estivemos perto de atingir com a publicidade angariada para este número.
Neste momento não há perspectivas de alteração destas condições. Neste momento, e paga esta edição, voltamos à estaca zero. Os contactos que tivemos com os potenciais apoiantes privados soçobraram perante a incapacidade de resposta quanto ao aumento da tiragem e consequente visibilidade e poder de atracção comercial. Ou seja, para poder haver uma alterações de condições é preciso que a OBSCENA tenha margem financeira para investir e, a médio e longo prazo, poder chegar a esse ambicionado orçamento tripartido.
Posto isto, a situação é não só bastante difícil como desesperante. Sem apoios públicos que convençam os privados a investir, e vice-versa, também não conseguimos responder às exigências do mercado ao nível da tiragem, respeito pela periodicidade e visibilidade. Dependentes apenas de nós mesmos, a hipótese de colocarmos um termo ao projecto está em cima da mesa há muito tempo.
Esta edição, com metade das páginas habituais e um custo de impressão dois terços menor do que o habitual (cerca de 2 mil euros), feita em tempo recorde (4 dias de paginação por incapacidade de poder garantir a sua viabilidade económica até ao momento da saída para a gráfica), é a única resposta que, sozinhos e em défice, podemos dar. A intenção, sugerida por muitos, de regressarmos à edição virtual, significa apenas a poupança do custo de impressão e distribuição. Os outros custos mantêm-se e, sobretudo, tal mudança não representa um aumento de capacidade de captação de investimento publicitário.
Até ao fim do ano, e porque há compromissos com os assinantes e os anunciantes, teremos mais três edições: 2 de Julho, 30 de Setembro e 20 de Dezembro, nos mesmos moldes. Depois disso faremos, uma vez mais, a coordenação da edição do anuário da rede TEAM Network, que sai em Março. A seguir não sabemos.
Se não conseguirmos encontrar condições de sustentabilidade até ao fim deste ano, fecharemos portas. Colocaremos um fim a este projecto, quando estiver às portas de completar 4 anos. Devolveremos o dinheiro ao assinantes, encontraremos soluções para os nossos colaboradores fixos, e abandonaremos a cena.
Quem vive pelo mercado, morre pelo mercado. Se o mercado, que nos diz reconhecer a revista, não conseguir, connosco, trabalhar no sentido de encontrar as condições necessárias, não nos resta alternativa. A defesa da arte, e do discurso crítico, não pode ser feito sob esforço eterno. Os profissionais que trabalham nesta revista não aguentam, verdadeiramente, o modelo deficitário do seu funcionamento.
Estamos, por isso, à venda. Estamos dispostos a discutir a possibilidade de integração num grupo editorial, a negociar com equipamentos culturais a co-edição de cada número, precisamos que comprem publicidade, que assinem a revista, que nos ajudem a distribuí-la, que queiram investir nela se tiveram empresas interessadas num projecto com penetração no mercado, com um perfil singular, que ao fim de três anos foi escolhido como um dos 25 projectos mais importantes a nível da edição cultural na Europa, pela Presidência Francesa da União Europeia.
Não precisamos apenas que nos aplauda. Precisamos, realmente, que nos ajude.
Obrigado.





















































































